terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Belíssima entrevista

É de encher os olhos a entrevista da secretária estadual de Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Castro, publicada nas páginas amarelas da revista Veja. De forma corajosa, ela destrói mitos e põe o dedo na ferida ao desnudar o quanto o corporativismo está a serviço da baixa qualidade do ensino básico brasileiro. E foge da mesmice, ao anunciar uma política inovadora que São Paulo começará a implantar nos próximos dias: a criação de incentivos materiais para as escolas que melhorarem o seu desempenho, a exemplo do que fizeram os países que obtiveram êxitos na sua revolução educacional. Por este caminho, diretores, professores e funcionários das escolas com bom desempenho receberão um bônus equivalente e três salários por ano.

É a ruptura com a concepção da isonomia salarial, onde, independentemente dos resultados, aumentos salariais são dados de forma linear, sem que haja um foco na aprendizagem do aluno. Como disse a Secretária, esta política, arraigadamente defendida pelos corporativistas, “contribui para a acomodação dos professores numa zona de mediocridade e passa ao largo dos diferentes resultados obtidos em sala de aula.” Ela destrói também o mito de que a ampliação dos recursos da Educação levam, automaticamente, à melhoria de sua qualidade. Quando este incremento não está associado à cobrança de resultados – portanto a uma política de reconhecimento do mérito – seus efeitos são nulos e ele realimenta o ciclo vicioso da mediocridade.

Sem ter medo de mexer em vespeiro, a Secretária de Educação de São Paulo tocou em um ponto neuvrágico: o desempenho das Faculdades de Educação – inclusive as de ponta como a USP e Unicamp- na sua missão de formar bons professores. De forma cáustica, ela mostra que prevalece um tipo de curso de pedagogia teoricista e sem vínculo com o mundo real das escolas públicas. Prioriza-se o discurso ideológico sobre o papel transformador do ensino, mas não se ensina aos futuros professores os aspectos básicos da didática e não se divulga as práticas pedagógicas que deram certo. Por este caminho, as faculdades de Educação podem estar formando bons humanistas, mas não necessariamente professores aptos para sua missão de ensinar aos alunos.

Outro tabu derrubado pela Secretária é o de que a adoção de currículos escolares unificados – prática que só três estados brasileiros adotam – tolhe os professores na liberdade de ensinar. Mas uma vez estamos diante de um discurso ideológico que não encontra respaldo nas experiências bem sucedidas de países que lograram sucesso em sua política educacional. Não me surpreende a coragem de Maria Helena para afirmar verdades cristalinas que incomodam os que querem perpetuar a mediocridade do nosso ensino.

Quando o governador José Serra teve a felicidade de escolher a atual Secretária da Educação, disse de público que ela era a pessoa mais qualificada do Brasil para o exercício da função e para que a educação pública de São Paulo voltasse a ter um papel de liderança no país. A nova política que ela adotou e a sua belíssima entrevista só confirmam as minhas avaliações. Ela sabe aonde a Educação deve chegar para que os brasileiros sejam beneficiários de um ensino público com parâmetros do primeiro mundo.

11 comentários:

Anônimo disse...

AS escolas públicas, instaladas nas periferias ou bolsões de pobreza, deveriam receber melhor atenção por parte das Secretarias do Estado da Educação e Saúde, pois além das instalações - precárias, não se observa instrumentos lúdicos de ensino e muito menos médicos, dentistas, psicólogos, para atender aquela população, bem diferente da população de Higienópolis.Será possível?

Mario disse...

Caro Paulo Renato e educadores,

Concordo com a Secretária, pois acho importante valorizar aqueles que, por inciciativa própria apresentam melhores resultados em suas escolas. Há muito o país carece de iniciativas como estas, que mobilizassem gestores e professores a romperem com o paradigma da mediocridade.
Muito cá entre nós, nada como pegar as pessoas pelo bolso, não sejamos hipócritas, quem não quer ganhar um pouquinho a mais, e neste caso, um montão a mais. Parabéns a Secretária.
Porem, o que mais me agrada é chacoalhada que o senhor dá nas Universidades e em seus cursos teóricos de Pedagogia, este sim me parece o maior desafio, enquanto estivermos preocupados em vomitar nomes de autores e suas teorias em vez de verificar se da fato suas idéias e princípios são aplicáveis, vamos continuar a ocupar os últimos lugares no ranking da educação básica, isto sim é uma vergonha.
As vezes fico pensando que poderíamos santificar nosso Paulo Freire e fazer de seus ensinamentos, nosso livro sagrado.
Queridos, fico na esperança de ver um Brasil melhor, não pelos indicadores econômicos, mas pelos indicadores educacionais.
Grande Abraço,
Mário Augusto Costa Valle

carmo disse...

Foi com imenso prazer que lí a entrevista da Secretária Maria Helena,onde ela deixa claro não só a coregem que tem de dizer o que precisava ser dito,como também a sua inteligência e lucidez para apresentar solução eficaz para um problema que vem se arrastando e causando danos. Espero sinceramente que ela possa dar continuidade ao processo sem nenhum contratempo para que possamos ver os resultados, com toda certeza positivos, que virão como consequência da competência e disposição da Secretária em fazer o que precisa ser feito.
Maria do Carmo Penteado de Camargo

Anônimo disse...

Como justificar que em São Paulo um professor possar faltar 29 dias ao ano sem ter que apresentar justificativa? É justo que quem se beneficia deste expediente receba o mesmo salário do professor que não falta ao trabalho e se empenha para dar uma educação de qualidade?
Claro que não, pois não se pode tratar desiguais de forma igual.
Professores da rede´pública ganham mal, como também outras categorias do funcionalismo público. Mas baixos salários não justificam o desleixo profissional ou greves absurdas como a dos policiais civis de Alagoas.
Este é o mérito do artigo de Maria Helena. Ela bota o dedo na ferida ao mostrar o quanto o corporativismo é um elemento do atraso a serviço da Educação de baixa qualidade.

Maria Celina Araújo

Anônimo disse...

Maria Helena mostrou ser uma mulher corajosa e não poupou nem mesmo as sacrossantas faculdades de educação. Seu questionamento é pertinente, pois a baixa qualificação dos professores é decorrente dos cursos nos quais eles foram formados. A cobrança deve ser ampla, geral e irrestrita e dela não podem escapar nem mesmo as faculdades de Educação da USP e da Unicamp. Se elas deixam a desejar, imaginem as que não tem o mesmo nível.

WANDER GOMES

Wilson P disse...

Nosso querido Deputado e ex ministro Paulo Renato fez escola!!!!

Paulo Ghiraldelli Jr disse...

Professor Paulo Renato
O que a professora Maria Helena falou não é novidade. Dito só agora, no século XXI, é um pouco tarde. Faz tempo que a Faculdade de Educação da USP não condiz com o "padrão USP", mesmo que esse padrão já não seja elogiável.
Outros ataques dela, aqui e ali, podem ser tomados como correto. Não vejo como ter bons professores se não houver carreira baseada no mérito INTELECTUAL. Mas, nesse caso, quem não sabe disso?
Agora, apesar do senhor ter sido contra a volta da filosofia e da sociologia no Ensino Médio, quando era Ministro da Educação, eu gostaria muito de contar com o senhor no sentido de lembrar a Secretária de Educação que essas disciplinas, na grade curricular, não irão atrapalhar, irão ajudar. São disciplinas essenciais para a melhoria da condição de profissionalização do estudante de Ensino Médio. E há professores concursados para tal. O PSDB havia dado um passo importante, em São Paulo, ao sair na frente com essa medida. E digo mais: São Paulo pode muito bem, como estado rico, manter essas aulas e até ampliá-las. Mais do que eu, o senhor sabe que a diminuição das horas de humanidades da grade curricular do Ensino Médio serão uma grande perda para os jovens. Não posso contar com sua ajuda para tal, para advogar a proteção dessas disciplinas na grade curricular?
Desde já agradeço a oportunidade de diálogo.
Paulo Ghiraldelli Jr, filósofo.

Hélio B disse...

Estou impressionado com o alto nível dos comentários e não sei se tenho a mesma competência. Por isto faço uma indagação aos especialistas e ao ex-ministro: o atual pacto federativo da Educação é justo? Os estados e municípios são responsabilizados por aquilo que deveria ser a prioridade: o ensino básico, enquanto a União cuida, principalmente, do Ensino Superior. Não é uma distorção o fato de as verbas federais serem destinadas principalmente para as Universidades?
Tenho sérias dúvidas se o atual sistema do ensino superior público é justo socialmente, ou se não deveríamos ter algo mais próximo do que o Chile e outros países aplicam; um sistema de bolsa voltadas para os estudantes pobres. O fato é que no Brasil financiamos o ensino superior de filhos da classe média, portanto de uma elite. Em contrapartida, faltam recursos para o ensino fundamental e para o ensino médio.

Vanessa Crecci disse...

A Secretária ressalta "Em pleno século XXI, há pessoas que persistem em uma visão sindicalista ultrapassada e corporativista, segundo a qual todos os professores merecem ganhar o mesmo salário no fim do mês" e assim, crítica a isonomia salarial, pois então, como uma prova da secretaria de educação pode ser o maior medidor desse desempenho de professores??? Se estamos em um século que considera as diferenças, as políticas não deveriam pautar-se nesses medidores iguais para contextos diferentes de uma rede de ensino imensa. Certamente, a Sra. Maria Helena Guimarães não desconhece está questão, mas, atentar a todo contexto estrutural desta rede custará muito mais caro do que premiar resultados isoladamente.

Vanessa Crecci disse...

Em relação aos cursos de Pedagogia, sou crítica ao currículo do meu curso, mas, o radicalismo desta senhora me dá medo, e também considero fundamental a visão que adquirimos do contexto para compreendermos nossa prática, mesmo faltando esta última no currículo, modificar é uma coisa, acabar já é radical de mais.
Vanessa Crecci, graduanda do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Campinas.

Professor Rodrigo B. Caires disse...

Caríssimo Paulo Renato:

Concordo plenamente com suas palavras e com as mudanças que estão ocorrendo. Infelizmente nossos professores precisam melhorar muito e dar bons exemplos
Professor Rodrigo Barbosa Caires